Imagine a seguinte situação: você acorda com um pequeno incômodo no pescoço, algo que parece um torcicolo bobo ou o início de uma dor de garganta. Você toma um analgésico, segue a vida, mas, em poucas horas, aquele “caroço” discreto começa a endurecer, a pele fica quente e o simples ato de engolir a própria saliva se torna um sacrifício. É exatamente assim, de forma sorrateira, que um abcesso cervical costuma se manifestar. Como cirurgião de cabeça e pescoço, recebo muitos pacientes que chegam ao consultório — ou, mais comumente, à emergência — assustados com a velocidade da evolução. O que as pessoas precisam entender é que o pescoço não é apenas um “tubo” que liga a cabeça ao corpo.
Ele é um labirinto complexo, preenchido por camadas de tecidos chamadas fáscias, que criam verdadeiros túneis ou espaços profundos. Quando uma infecção — que pode vir de um dente inflamado, de uma amigdalite mal curada ou até de um pequeno ferimento na boca — atinge esses espaços, o corpo reage produzindo pus. O problema é que esses “corredores” anatômicos se comunicam. Um abcesso que começa na base da mandíbula pode, se não for tratado, descer para o mediastino (a região do coração e pulmões) em questão de horas. É o que chamamos de mediastinite, uma das complicações mais graves da nossa especialidade. A linha tênue entre o “gelo e repouso” e a cirurgia Muitas vezes, o paciente negligencia os primeiros sinais porque não há uma ferida aberta. Mas existem “red flags” (sinais de alerta) que eu sempre bato na tecla.
Se você notar um inchaço que endurece a região (o que chamamos de edema lenhoso), febre alta, calafrios ou o trismo — que é aquela dificuldade técnica de abrir a boca completamente —, não espere o dia seguinte. Outro sintoma crítico é a disfagia (dificuldade para engolir) ou a mudança no timbre da voz, que pode ficar abafada, como se você estivesse falando com uma “batata quente” na boca. Isso indica que o abcesso está empurrando as estruturas da via aérea. Aqui, o tempo é o nosso maior inimigo. No hospital, o diagnóstico precisa ser certeiro. Geralmente, uma tomografia computadorizada com contraste é o padrão-ouro. Ela me mostra exatamente onde o pus está escondido, se está perto da artéria carótida ou se está comprimindo a traqueia. Nem todo abcesso precisa de corte imediato; alguns casos muito iniciais respondem a antibióticos potentes na veia. Mas, na grande maioria das vezes, o tratamento é cirúrgico: a drenagem.
O que acontece na sala de cirurgia? Diferente de uma cirurgia estética, a drenagem de um abcesso cervical busca a função e a segurança. O objetivo é abrir o espaço infectado, lavar abundantemente e deixar um dreno para que o restante da secreção saia nos dias seguintes. É um alívio quase imediato para o paciente. A pressão diminui, a dor cede e a respiração volta ao normal. Lembro-me de um caso recente de um rapaz jovem, que ignorou uma dor de dente por duas semanas. Ele chegou ao pronto-socorro com o pescoço tão inchado que já estava com dificuldade para respirar. Precisamos intervir de madrugada. O que era para ser uma simples ida ao dentista virou uma internação de dez dias com antibióticos de largo espectro.